Ei você! Você mesmo que está começando a ler essa postagem. Neste exato momento, o que consideravelmente está fazendo? Lendo? Bem, seria simples essa resposta, mas até mesmo numa simplicidade como esta você está executando diversos mecanismos mentais complexos. Inconscientemente, nós seres humanos estamos na maior parte do tempo desejando. Desde as pequenas coisas como acender a luz, até desejar a mais opulente mansão que sua imaginação consegue alcançar. Porém esse desejo não difere nada para tais realizações, pois o fácil e o difícil não existem, e sim como você visa-as.
Então, retomando o título do artigo: “Cuidado com seus desejos. Você pode realizá-los.” Este é o dito popular em sua forma completa. Porém, pode haver diferentes apropriações do mesmo. Pode-se compreendê-lo pelo viés da capacidade, do sucesso, ou mesmo da decepção. O primeiro sentido seria: você é capaz de realizá-los. Ou: a possibilidade de realização é maior do que você imagina. Acaba atuando como uma forma poética ”de estimular o desejo, o sonho, ou a aposta.”
Será mesmo que devemos julgar os acontecimentos ou situações pela nossa capacidade? A prova de cálculo que você executou foi difícil, não é? Porém ela não é difícil quando temos certeza absoluta e se estamos determinados da nossa confiança própria. Posso ser mais claro:
Boa parte de nossos dramas existenciais e da conquista de bem-estar psicológico podem ser relacionados ao modo como lidamos com nossos desejos. Há quem pregue a completa renúncia ao desejo. Afirmam que nele estaria a fonte da infelicidade. Neste caso, em tese, só desejamos aquilo que não possuímos. Logo, ao obter o que desejávamos, já não o queremos mais. O que nos incluiria em um ciclo de perpétua geração da insatisfação. Esta só existe se há desejo. Se há insatisfação, infelicidade, elas geralmente existem porque algum desejo não foi satisfeito.
A felicidade, ou a alegria, seu representante elementar, são frutos da realização de desejo. Se alguém está alegre ou feliz é porque algum desejo foi ou está sendo satisfeito. Portanto, neste contexto de argumentação, a afirmação de que renúncia ao desejo seria um caminho para a felicidade é insustentável. Na verdade, o foco deve ser mantido no modo como desejamos. Não se trata, em termos absolutos, de haver desejo ou não. Pois o desejo é o motor. É ele, de certo modo, quem nos mantém vivo. Sem desejo não há ação.
Parar de fumar, perder aqueles 5 kg, arranjar o parceiro dos sonhos, aprender a tocar violão, comprar afinal um apartamento, trocar de carro..
Não temos saída, termina um ciclo, começa o próximo e ninguém escapa da sensação de que é preciso virar a vida de cabeça para baixo, esvaziar os bolsos da velharia do ano que passou e vestir a alma com as melhores intenções e projetos para o futuro.
São infindáveis as variações em torno do tema: desejos. Ninguém tem tudo o que sonha ninguém é tudo que imagina. Somos seres eternamente “sendo”, num cenário sempre em construção. Tantas coisas nos faltam… e como é aguda essa urgência do desejo que acompanha a virada do ano!
Os budistas apontam os desejos como sendo a raiz do nosso sofrimento. Pois é, esperamos o que não depende de nós, esperamos o que não sabemos se vai ou não se realizar, esperamos o imponderável: ganhar na loteria, encontrar a pessoa ideal, ter saúde…desejar as coisas que só existem no grande saco vermelho do Papai Noel só nos causa sofrimento.
Temos que aprender a desejar aquilo que está ao nosso alcance, na medida da nossa capacidade de agir, no limite da nossa vontade. Esse é o truque. “Quando você desaprender de esperar, eu o ensinarei a querer”. Tento sintetizar, da forma mais simples possível (ou até simplória – talvez seja o caso), um imperativo moral no seguinte enunciado:
“Desejar mais o que já se tem e menos o que ainda não tem”.
A primeira é a classe dos desejos imediatamente possíveis e a segunda é a classe dos desejos prováveis. Colocados na balança de nossa vida, é mais prudente que existam, em maior peso e número, os imediatamente possíveis. Esta classe diz respeito a tudo aquilo que desejamos e que pode ser imediatamente realizado. É desejar o que já se tem. É desfrutar de tudo aquilo que já possuímos. É dar valor ao que temos. Eis a gratidão, como uma virtude, e sua importância.
“Desejar mais o que já se tem e menos o que ainda não tem”.
A primeira é a classe dos desejos imediatamente possíveis e a segunda é a classe dos desejos prováveis. Colocados na balança de nossa vida, é mais prudente que existam, em maior peso e número, os imediatamente possíveis. Esta classe diz respeito a tudo aquilo que desejamos e que pode ser imediatamente realizado. É desejar o que já se tem. É desfrutar de tudo aquilo que já possuímos. É dar valor ao que temos. Eis a gratidão, como uma virtude, e sua importância.
Os jargões populares “só dá valor quando perde” e “não dá valor ao que tem” traduz de certa forma o erro: desejar somente o que não possuímos, deixando de lado toda uma vida possível e palpável, a qual poderia ter sido desfrutada e não foi. Sinto da seguinte maneira: não é necessário abandonar nossos sonhos. Mas é muito pouco saudável viver somente em função deles, sacrificar nossas possibilidades de fruição e prazer imediatos em prol de castelos no ar.
E o que seria desejar o que já se possui? Muito simples. É desejar o que é imediatamente possível. Por exemplo: desejo chegar hoje em casa e tomar um bom e relaxante banho; desejo, após o almoço tirar um bom descanso; desejo agora estar aqui, escrevendo este artigo, e estou. Nada disso é simplesmente provável. São eventos que estão imediatamente ao meu alcance e não dependem predominantemente de terceiros ou sorte. Se depender dos outros ou da sorte, então desista e vá dedicar sua energia em algo mais útil. É a tristeza do torcedor, do fã, dos idólatras como um todo. É remoer-se por algo que não depende de nossos próprios esforços. É colocar todas as fichas de nossas apostas vitais em algo que está fora de nós mesmos. É abrir mão de nossas responsabilidades e de tudo o que podemos fazer por nós próprios, na esperança inútil de que algo decisivo aconteça, de que alguma graça caia do céu.
Toda esperança é um desejo, mas que nem todo desejo é uma esperança. Pois é possível desejar o que já possuímos, o que é imediatamente possível. E isto seria o que ele chama de “felicidade em ato”. Mais bem-estar significa mais felicidade em ato e menos felicidade em potência no balanço de nossa vida.
Seria tirar a vida do condicional, do “como eu seria feliz se isso ou se aquilo”. É fazer o que se tem vontade, o que se gosta, aqui e agora. O que se pode fazer e não o que se poderia fazer. Tirar proveito, prazer, de tudo o que já temos, por mais simples que seja. Uma sabedoria da simplicidade, dos pequenos prazeres da vida, muitas vezes.
Seria tirar a vida do condicional, do “como eu seria feliz se isso ou se aquilo”. É fazer o que se tem vontade, o que se gosta, aqui e agora. O que se pode fazer e não o que se poderia fazer. Tirar proveito, prazer, de tudo o que já temos, por mais simples que seja. Uma sabedoria da simplicidade, dos pequenos prazeres da vida, muitas vezes.
Desejando avidamente tudo o que não possuem tudo o que está distante, tropeçam no passo mais próximo. Aliás, a avidez, o excesso de energia que concentramos em um único ponto de nossos desejos, é também geralmente nefasto. Jargão popular: “não ir com muita sede ao pote”. Em muitos casos uma atitude mais desprendida e desapegada do objeto de desejo é mais salutar. Porque a avidez é irmã de uma ansiedade contraproducente, a qual atropela ou violenta o objeto de desejo, em vez de conquistá-lo. Bota o carro na frente dos bois. É mãe de uma impetuosidade viciosa. É a voracidade que não saboreia o desejo intenso que é inimigo da espontaneidade, pois é mistificação excessiva, tornar fetiche o que não se possui. É desejar possuir antes de conhecer. O ter antes do saber. E talvez uma desesperada paixão pelo êxito.
Então, retomando o título do artigo: “Cuidado com seus desejos. Você pode realizá-los.” Este é o dito popular em sua forma completa. Porém, pode haver diferentes apropriações do mesmo. Pode-se compreendê-lo pelo viés da capacidade, do sucesso, ou mesmo da decepção. O primeiro sentido seria: você é capaz de realizá-los. Ou: a possibilidade de realização é maior do que você imagina. Acaba atuando como uma forma poética ”de estimular o desejo, o sonho, ou a aposta.”
E na verdade é isso o que o mercado do sucesso, da auto-ajuda, em boa medida, faz: cria legião de apostadores. Vive de vender apostas, de estimular o comportamento de jogo, de aposta. “É necessário desejar (“, pois assim o universo conspira a favor”), sonhar, acreditar, ter fé, esperança, pensar positivo”. O segundo sentido refere-se à possibilidade de realização, mas levando-se em conta também a possibilidade da decepção. E este seria o segundo tipo de catástrofe que acomete a existência: quando nossos desejos são satisfeitos.
Muitas vezes, devido à avidez ou ambição excessiva, criamos tantas expectativas em relação à realização de determinados desejos, que nos esquecemos de todo o restante da vida. Passamos a habitar as nuvens e assim deixamos de viver. E nos esquecemos também que frustrações e decepções não são somente frutos do fracasso. Elas podem surgir da simples percepção de que nossos objetos de desejos não são tão fabulosos quanto nossa sede os fazia parecer. Porque a idolatria quase sempre desemboca na decepção. O olhar faminto adultera e diviniza o objeto da fome. Assim, o desejo, o sonho, é traduzido em necessidade vital (com o perdão do pleonasmo). É este mesmo o mecanismo: transformar o sonho em algo vital; e a probabilidade em certeza. O sonho realizado ou a morte. E assim muitos sonhadores deixam de viver, para viver sonhando.



