"Nos muros das cidades e no mundo virtual, anônimos e famosos tentam achar uma
resposta sobre o que é o amor"
resposta sobre o que é o amor"
Lilian Merin
O amor na sua atual condição encontra-se em decadência, além de banalizado. A sociedade em superioridade é capitalista, pensam mais em conquistar pessoas de bom poder aquisitivo. Pela internet, principalmente, muitos outros passaram a transmitir mensagens dizendo que o amor é importante, e fazem isso por meio de fotografias, citações, canções... É como se, atualmente, muitas pessoas quisessem resgatar o romantismo, declarar seus amores e até seus desamores, e também mostrar que o mundo pode ser um lugar mais feliz, menos caótico. Para mostrar isso, surgem campanhas como a Free Hugs (www.freehugs.com), que propõe que você abrace um estranho, simplesmente para alegrar tanto a vida dele quanto a sua.
As formalidades são abandonadas dia após dia. O clássico já é visto por muitos como antiquado. A traição virou comum.
As formalidades são abandonadas dia após dia. O clássico já é visto por muitos como antiquado. A traição virou comum.
Foram muitas as transformações vividas pela sociedade em suas diversas áreas. A mulher conquistou seu espaço no mercado de trabalho, embora ainda haja muito a ser adquirido. As indústrias lucraram com as novas tecnologias que trouxeram consigo equipamentos com a capacidade de maior produção em menos tempo. O acesso aos meios de comunicação e a inserção de grande parte da população ao mundo virtual mudou a visão de toda uma geração. As mudanças acontecem numa velocidade quase imperceptível. Os sentimentos parecem ter acompanhado na mesma agilidade. Mas, ao contrário das tecnologias que trouxeram, em sua maioria, benefícios à sociedade, os laços afetivos demonstram uma fragilidade que sugere reflexão.
As pessoas parecem ter encontrado um jeito de se adequar às novas maneiras de se relacionar. Um dos exemplos disso é o “ficar”, que há pouco mais de 15 anos virou moda entre os adolescentes. Para se conhecer alguém e iniciar um contato mais íntimo, bastava que um aceitasse ficar com o outro. O namoro, que até então era o primeiro passo para se conhecer alguém que havia despertado certo interesse, foi deixado em segundo plano. Seria um passo sério demais, por isso, a ideia era testar até encontrar alguém que valesse de fato a pena. Será que essa dificuldade em se criar uma ligação mais intensa com outra pessoa, pode ser resultado dessas transformações tão repentinas no meio em que vivemos?
Ficar pode ser a melhor opção? O que você pensa a respeito? Você prefere ficar ou namorar?
Vínculo x Liberdade
O amor, sendo desejo de união com o outro, estabelece, no entanto, um tipo de vínculo paradoxal: o amante deve cativar para ser amado livremente. Podemos mesmo dizer que o fascínio é gerador de poder: o poder de atração de um sobre o outro. No entanto, tal “cativeiro” não pode ser entendido como ausência de liberdade, pois a união deve ser a condição da expressão cada vez mais enriquecida da nossa sensibilidade e da nossa personalidade. É fácil observar isso na relação entre duas pessoas apaixonadas: a presença do outro é solicitada na sua espontaneidade, pois são os dois que escolhem livremente estar juntos. O amor imaturo, ao contrário, é exclusivista, possessivo, egoísta, dominador. Mas não é fácil determinar quando o poder gerado pelo amor ultrapassa os limites. Vimos que a força do amor está na atração que um exerce sobre o outro. Em que momento isso se transforma em um desejo de controlar, de manipular? A sociedade capitalista, centrada no valor do “ter”, desenvolve formas possessivas de relação. O ciúme exacerbado é o desejo de domínio integral do outro. Não queremos dizer que o ciúme não deva existir. Etimologicamente, ciúme significa “zelo”: o amor implica cuidado e temor de perder o amado. Portanto, se não desejamos o rompimento da trama tecida na relação recíproca e se o outro dá densidade à nossa emoção e enriquece nossa existência, sofremos até com a ideia da perda.
Vínculo x Alteridade
Há um seguinte paradoxo no amor: ele deve ser uma união, com a condição de cada um preservar a própria integridade. Faz com que dois seres estejam unidos e, contudo, permaneçam separados.
Há um seguinte paradoxo no amor: ele deve ser uma união, com a condição de cada um preservar a própria integridade. Faz com que dois seres estejam unidos e, contudo, permaneçam separados.
O amor é o convite para sair de si mesmo. Se a pessoa estiver muito centrada nela mesma, não será capaz de ouvir o apelo do outro. É isso que ocorre com a criança, que normalmente procura quem melhor preencha suas necessidades. Quando esse procedimento continua na idade adulta, torna-se impedimento do amor verdadeiro. Basta lembrar a lenda de Narciso, que, ao contemplar seu rosto refletido na água, apaixona-se por si próprio. Isso causa sua morte, pois se esquece de se alimentar, tão envolvido se acha com a própria imagem intangível. O narcisista “morre” na medida em que torna impossível a ligação fecunda com o outro. Esse egocentrismo persiste na adolescência, como momento de passagem da vida infantil para a vida adulta. Por isso o adolescente muitas vezes não propriamente o outro, ser de carne e osso, mas ama o Amor. Trata-se do amor idealizado, romântico, um pouco fruto do medo desse lançar-se nas contradições do exercício efetivo do amor.
O exercício do amor supõe a descoberta do outro. Por isso o amor envolve o respeito, não no sentido moralista que rotineiramente se dá a esse conceito, mas como temor resultante da autoridade imposta. Respicere, em latim, significa “olha para”, ou seja, o respeito e a capacidade de ver uma pessoa como tal, reconhecendo sua individualidade singular. Isso supõe a preocupação de que a outra pessoa cresça e se desenvolva como ela é, não como queiramos que ela seja. O amor supõe a liberdade, e não a exploração: o outro não é alguém de quem nos servimos. O amor maduro é livre e generoso, fundando-se na reciprocidade. (…) O paradoxo da relação amorosa, colocada ao mesmo tempo como desejo de união e preservação da alteridade, dimensiona a ambiguidade que o homem é lançado.
O não saber viver nessa ambiguidade leva certas pessoas ou a procurar a “fusão” com o outro, do que decorre a perda da individualidade, ou a recusar o envolvimento por temer essa perda. No entanto, o risco do amor é a separação. Mergulhar numa relação amorosa supõe a possibilidade da perda. A separação é a vivência da morte numa situação vital: é a vivência da morte do outro em minha consciência e a vivência de minha morte na consciência do outro. Quando ocorre a perda, a pessoa precisa de um tempo para se reestruturar, pois, mesmo quando mantém sua individualidade, o tecido do seu ser passa inevitavelmente pelo outro. Há um período de “luto” a ser superado após a separação, quando, então, se busca novo equilíbrio.
Uma característica dos indivíduos maduros é saber integrar a possibilidade da morte no cotidiano da sua vida. E quando falamos em morte, nos referimos não só ao sentido literal, mas às diversas “mortes” ou perdas que permeiam nossas vidas. No entanto, nas sociedades massificadas, onde o eu não é suficientemente forte, as pessoas preferem não viver, para não ter de viver com a morte. Por isso, também, as relações tendem a se tornar superficiais, e é nesse sentido que concluo com a seguinte afirmação: “Nas sociedades burocratizadas e aburguesadas, é adulto quem se conforma em viver menos para não ter que morrer tanto. Porém, o segredo da juventude é este: vida quer dizer arriscar-se à morte; e fúria de viver quer dizer viver a dificuldade”.




